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Caverna da Ponta do Ferreiro
24 de Fevereiro


Tudo começou quando nos preparávamos para mergulhar na “nova caverna”, tão famosa que o Dimitri da Pl Divers anunciava na segunda quinzena de janeiro de 2006.

Estávamos Dimitri e eu (dive supervisores da PL Divers) e os caverneiros Alex conversando sobre as “cavernas” de Arraial do Cabo quando o Alex falou de uma fenda na primeira caverna (a mais profunda) da Ponta do Ferreiro que se localizava próximo à entrada, mas não chegamos a um acordo sobre sua existência e localização, pois afinal, não lembrávamos, visto que os mergulhos realizados pela equipe PL Divers no local, com seus clientes são contemplativos e não exploratórios, então é perdoável nossa falha em não lembrar a localização. Depois de uma conversa com Paulo Lopes, ele confirmou a localização dessa fenda, mas o assunto morreu aí.

No dia 24 de fevereiro quando eu chegava a Arraial do Cabo e passava pela Prainha, contemplei o mar e vi que a água estava azul e o mar parado, flat como dizemos. Chegando na operadora e conversando sobre a possibilidade de mergulhos com essas condições foi cogitada a hipótese de se mergulhar no Ferreiro e na mesma hora o Dimitri lembrou da tal fenda e da possibilidade de explorá-la já que teríamos poucos clientes e nós (eu e Dimitri) mergulharíamos livres; na mesma hora fomos aprontar a filmadora e a iluminação sub para nossa aventura.
Na manhã seguinte o mar amanheceu azul assim como o céu, e a expectativa aumentava. A caminho do ponto de mergulho admirávamos a cor da água, impressionante, os deuses abençoaram Arraial do Cabo com uma água azul e temperatura de 22ºC nesse dia. Perfeito. Paulo Lopes desceu com alunos, Bruno, o outro divemaster, desceu com os turistas, eu e Dimitri fomos para a caverna.

Achar a fenda foi muito fácil ela se estende de cima abaixo, do lado direito de quem entra, exatamente como Paulo disse. É uma fenda estreita. Como se duas rochas gêmeas quase se encontrassem e se encaixassem ou se uma grande rocha se partisse e contra sua vontade se separasse. Eu prefiro a segunda opinião porque em alguns lugares ela parece mesmo não querer se separar, são muito estreitas sendo algo em torno de 20 cm ou menos e a largura máxima não ultrapassa 1m e ela se estende na vertical em todo seu percurso e assim iniciava nossa aventura que mais tarde reconheceríamos ser uma aventura rumo aos nossos limites. Explico.
Planejamos nosso mergulho da seguinte maneira, mergulharíamos com um cilindro de aço de 15L, Dimitri iria à frente com uma lanterna e eu iria atrás filmando, ótimo não? Iniciamos a penetração aos 22m de profundidade em uma área mais larga que permitiu que penetrássemos alguns metros, porém devido ao estreitamento em certos pontos fomos obrigados a procurar novas passagens acima e abaixo de onde entramos, até encontrar outro ponto mais largo onde entraríamos mais um pouco. E assim fomos subindo, descendo e avançando, sempre mantendo o Dimi no meu campo de visão, até penetrarmos algo em torno de 30 m para dentro da fenda e a uma profundidade máxima atingida de 25m. Difícil estimar essa distância horizontal já que muitos fatores influenciavam esse nosso avanço e com certeza uma grande quantidade de adrenalina corria em nossas veias; a pequena largura entre as rochas, o grande esforço para nos movermos nesse local, a ansiedade pela busca de novas passagens, a sensação de esmagamento entre as rochas, a excitação de estarmos numa situação daquela e sermos os primeiros a estarmos naquele local (pelo menos até onde sabemos).


Cada onda que batia contra a pedra dava um estrondo pavoroso lá em baixo e há uma pressão no ouvido como se descêssemos muito depressa e não compensássemos, essa pressão passa logo, mas o tremor na pedra é constante, e ainda havia uma forte correnteza lá dentro que tentava de toda maneira nos movimentar, mas era em vão porque nossos cilindros de aço estavam travados entre as pedras. Nessa hora Dimitri fez um grande esforço, começou a se virar e sinalizou para voltarmos. Eu que estava numa posição um pouco acima dele fiz um sinal para que ele passasse por baixo de mim e fosse, depois eu me viraria e o seguiria, mas ele me olhou e nada fez, esperei um pouco mais e nada, então fiz um sinal para continuarmos (acho que era isso que ele esperava) e então ele começou a avançar novamente e eu atrás, nos arrastamos por mais alguns metros e eu fiquei com a filmadora travada nas pedras, não tinha como prosseguir com ela, avisei o Dimi, ele que nessa hora estava numa posição vertical, foi se arrastando pra baixo e pra frente e mais pra baixo até que perdi de vista a luz de sua lanterna. Eu esperei um pouco e logo vi pela fenda a uns 5m a minha frente o facho de luz halógena me sinalizando OK, e em poucos segundos o sinal de que algo está errado. Na mesma hora desliguei a câmera, já que tinha deixado ela filmando tudo desde o começo, não queria filmar uma tragédia. Parei. Foi quando comecei a pensar na besteira que fizemos. Eu ficava e esperava o Dimi e não o ajudava, ou ia atrás dele e corria o risco de me estrepar também. Mas nessa hora percebi sua lanterna vindo em minha direção, bem mais depressa que nosso deslocamento avante e logo o Dimitri estava na minha frente e começamos a voltar, com a ajuda da correnteza. Não me lembro bem dessa volta, muito menos o Dimitri, mas quando começamos a ver algum sinal de luz do sol tornei a pôr a câmera pra filmar. Até esse momento tinha mais ou menos 23 minutos de mergulho e prosseguimos pelas outras cavernas (só contemplando) terminando em um mergulho multinível e fechando 50 minutos de mergulho.

No barco a excitação era grande contando a todos o ocorrido, e o Dimitri contou que chegou a um grande salão e imaginou que tinha chegado na saída, mas quando ele lembrou que tinha que voltar se desesperou. Entre um refrigerante e outro surgiram milhões de questões, dúvidas e indagações.

Nessa louca e excitante aventura de 2 experientes mergulhadores recreativos em uma incursão técnica, nada aconteceu, mas diante de nossa total falta de preparo para uma situação extrema como essa, muitas coisas poderiam ter acontecido, coisas que nem quero pensar agora. Logicamente pretendemos voltar lá, mas dessa vez com todo o cuidado, preparo e equipamentos que são necessários para uma empreitada dessa, com segurança.

Relato de :
Fernando Milicio
PDIC# 095580


Em janeiro/2008:


A experiência que vivemos nos fez entender a importância de treinamento específicos para esse tipo de mergulho e hoje, a equipe PL Divers, conta com uma excelente estrutura de treinamento para mergulho técnico. Investimos pesado em treinamentos e equipamentos, para que pudessemos realizar com segurança novas descobertas e aventuras em ambientes restritos e com maiores profundidades. Hoje a PL Divers tornou-se Technical Facility Training da IANTD, tendo como líder o Sr. Paulo Lopes, agora Instrutor Trainer IANTD.